O papel da UTI em cirurgia
bariátrica
É alarmante o crescimento da obesidade no mundo
inteiro. Não só fatores genéticos,
mas agora, mais que nunca, fatores ambientais, culturais,
comportamentais, dentre outros, têm contribuído
para o aumento deste que vem sendo chamado de “mal
do milênio”. Por outro lado os tratamentos clínicos
para as formas extremas do excesso de peso, como a obesidade
mórbida, têm se mostrado ineficazes na grande
maioria dos casos. O tratamento cirúrgico surge então,
como a única forma reconhecida de combater a obesidade
mórbida.
Há muito que a obesidade vem sendo considerada uma
doença inflamatória crônica. O adipócito
deixou de ser considerado apenas como uma célula
de armazenamento de calorias para ser compreendido como
uma célula metabolicamente ativa e produtora de inúmeras
substâncias inflamatórias, tais como a interleucina
6 e o Fator de Necrose Tumoral-alfa (TNF-alfa)gerando um
estado inflamatório crônico. Essa condição
predispõe a aterogênese, trombogênese
e carcinogênese tornando o paciente obeso mais susceptível
a doenças sistêmicas metabólicas, cardiopulmonares,
articulares, hormonais, etc. São as chamadas comorbidades
que desaparecem com a perda de peso.
A Unidade de terapia Intensiva (UTI), criada há
mais de 40 anos e que hoje se constitui em importante especialidade
médica, possibilitou o desenvolvimento de várias
áreas da medicina como, por exemplo, os transplantes
de órgãos e a cirurgia cardíaca. Os
pacientes obesos mais suscetíveis a doenças
críticas e os submetidos à cirurgia bariátrica
também se beneficiaram desses avanços.
Existem dados que mostram uma prevalência de obesos
mórbidos de até 7% dos pacientes internados
em UTI geral. El-Solh num estudo retrospectivo comparando
dois grupos, sendo um de 117 obesos mórbidos e o
outro de 132 não-obesos admitidos em duas UTI´s
por um períodos de 7 anos, observou que os obesos
mórbidos tiveram uma permanência hospitalar
de 17,7 contra 11,3 dias,(p=0,007) e permanência na
UTI de 9,3 dias contra 5,8 do grupo não-obeso, (p=0,007).
Neste estudo a mortalidade na UTI foi quase o dobro na população
de obesos mórbidos (30% contra 17% dos não-obesos).
Com relação a pacientes obesos mórbidos
submetidos à cirurgia bariátrica, Nguyen demonstra
que uma significativa parcela desses pacientes operados
necessitará de UTI: 7,6% de seus bypass gástricos
laparoscópicos e 21,1% das cirurgias de redução
do estômago por via aberta. Outras séries mostram
que até 24% dos pacientes cirúrgicos bariátricos
necessitam de UTI.
Alguns serviços que não apresentam limitações
de vagas indicam a realização do pós-operatório
imediato em UTI para todos pacientes.
Segundo Pieracci, numa abordagem seletiva, a presença
dos seguintes fatores de risco é indicativa de UTI
em pós-operatório imediato de cirurgia bariátrica:
-Sexo masculino
-Idade > 50 anos
-Índice de Massa Corpórea > 60 kg/m²
-Diabetes Mellitus
-Doença cardiovascular
-Síndrome da apnéia obstrutiva do sono
Existem certas circunstâncias em que a UTI é
imprescindível na atenção pós-operatória
ao obeso. |Por exemplo, um paciente que apresente dificuldade
de extubação ou insuficiência respiratória
pós-anestésica, necessita assistência
ventilatória intensiva. Todas as reoperações
de urgência devem ser encaminhadas para recuperação
pós-operatória na UTI. As complicações
apresentadas pelos pacientes bariátricos como hemorragias,
sepsis, embolia pulmonar, fístulas digestivas, obstrução
intestinal também são melhores conduzidas
em ambiente de UTI. As cirurgias revisionais pela maior
morbi-mortalidade que apresentam também devem ser
encaminhadas para a UTI.
Apesar de tratar-se de ambiente estressante para os pacientes,
as UTI´s são locais que lhes garantem a máxima
segurança clínica no ambiente hospitalar.
Isso se deve ao corpo clínico composto por médicos,
enfermeiros, nutricionistas e fisioterapeutas altamente
qualificados no atendimento ao paciente crítico,
além de sofisticados equipamentos que monitorizam
suas funções vitais. Nos últimos anos,
um grande movimento de humanização tem tomado
conta das UTI´s para reverter a impressão de
que ali seja um lugar frio e impessoal, para assim proporcionar
um maior bem-estar aos pacientes internados. Música
ambiente, janelas amplas para percepção do
ritmo circadiano de noite e dia, televisores, presença
de acompanhantes e familiares por tempo prolongado, respeito
a maior privacidade dos pacientes e até mesmo ambiente
físico mais reservado têm sido encorajados
ultimamente. “Brigadas de Silêncio” envolvendo
todos que ali trabalham procuram tornar o ambiente calmo
e mais agradável. Cada paciente tem a sua disposição
um médico intensivista e uma enfermeira durante 24
horas, qualificados para prestar atendimento a qualquer
que seja a doença ou intercorrência clínica
que venha surgir, trazendo mais tranqüilidade e segurança
ao paciente.
A internação em UTI no pós-operatório
imediato de cirurgia bariátrica não é
obrigatória para todos os casos. Contudo, aqueles
pacientes que necessitarem desses cuidados intensivos devem
saber que disponibilizarão dos melhores recursos
existentes na Medicina Crítica atual: um conforto
e segurança para o paciente e para o seu médico.
Dr. Sérgio Arruda
Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica
Referências:
-Critical care of the obese and bariatric surgical patient
Levi,D. et al - Critical Care Clinics - JAN – 2003;
19(1)
-Utilization of intensive care resources in
bariatric surgery.
Cend JC - Obes Surg - 01-OUT-2005; 15(9): 1247-51
-Determinants of the need for intensive care and prolonged
mechanical ventilation in patients undergoing bariatric
surgery.
Helling TS - Obes Surg - 01-SEP-2004; 14(8): 1036-41
-Critical care of the bariatric patient.
Pieracci FM - Crit Care Med - 01-JUN-2006; 34(6): 1796-804
-Morbid obesity in the medical ICU.
El-Solh A, Sikka P, Bozkanat E, et al Chest (2001) 120:
pp 1989-1997
-Laparoscopic versus open gastric bypass:
Randomized study of outcomes, quality of life, and costs.
Nguyen NT, Goldman C, Rosenquist J, et al. Ann Surg (2001)
234: pp 279-291
-Adipose tissue: From lipid storage to endocrine
organ.
Philipp Scherer. Diabetes (2006) 55(6)
|